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Maloca aposta em pluralidade e diálogo no cenário da música no Ceará
Maloca Dragão 2017 abarca a diversidade da música produzida no Ceará e faz ponte com artistas nacionais e internacionais

É na sexta-feira que começa o fim de semana de festejar a Maloca de todas as artes. Shows musicais, festas, espetáculos de dança, teatro e circo, intervenções urbanas, feiras, as atrações todas espalhadas em mais de 20 espaços dentro e no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.  Dentre as mais diversas linguagens artísticas, a Música recebeu maior parte das mais de 700 inscrições na chamada pública. A partir de uma curadoria cuidadosa do produtor musical Ivan Ferraro, a Maloca Dragão de 2017 apresenta 65 shows, entre selecionados na chamada e convidados, nos dias 28 a 30 de abril.

A pluralidade do cenário musical cearense reflete-se na seleção da chamada do Festival, consolidando o dinamismo e a atualidade de projetos sem perder de vista a diversidade cultural Ceará e do Nordeste. Ivan vê como positiva a interação entre artistas locais, nacionais e internacionais, de diferentes gêneros, dentro de um mesmo espaço. "Juntar num mesmo palco um nome que está em ascensão nacional, como a Karol Conka, dá um impulso e motivação para os artistas daqui. Vão se conhecer, trocar ideias, vão se aproximar. Isso pode propiciar negócios e futuros projetos também", comenta.

A exemplo da Karol Conka, outras atrações nacionais convidadas como BaianaSystem, Tribo de Jah e As Bahias e a Cozinha Mineira trazem na essência diferentes discursos com crítica social, como matéria prima para unir fortes elementos de culturas musicais regionais brasileiras. Esse perfil, segundo Ivan, "tem influenciado a música brasileira como um todo. Aqueles que têm despontado, com boa resposta de público, são grupos com pautas mais claras. É importante e necessário que esses artistas levem pautas políticas como bandeira, porque são pessoas que influenciam muita gente, são formadores de opinião. É uma boa hora pra isso". 

O rap, gênero que carrega na gênese esse perfil apontado por Ivan, tem público cativo no Ceará, com muitos grupos nascidos nas periferias de Fortaleza e do interior. Erivan Sales, rapper e produtor musical, veio ainda menino do interior para morar no Morro de Santa Terezinha (bairro Vicente Pinzón) e com 15 anos foi convidado a integrar o grupo Conscientes do Sistema, sucesso no final dos anos 1990. Como o próprio nome diz, Erivan Produtos do Morro (foto principal) já fez carreira internacional, mas carrega sua raiz e sua primeira inspiração, seus tios repentistas que tocavam numa rádio do interior. "A gente pode se inspirar numa batida gringa, num flow de um cara do sudeste, mas quando chegar aqui, isso vai se misturar com a nossa cultura e vai virar outra coisa. É a mistura do forró com o rap", analisa.

 

Mercado da música ainda precário em Fortaleza
Sobre a carreira, Erivan conta que ralou no início. "Devido às dificuldades de trabalhar com música aqui, eu sempre tive vontade de sair fora. Então, trabalhei duro, juntei dinheiro e no primeiro convite fiz as malas e fui pra Finlândia, comenta, mas ressaltando que o mercado da música no Ceará tem se organizado, mas precisa crescer mais. Ainda são poucos os espaços que incentivam a música autoral, deixando para os festivais a responsabilidade de difundir os trabalhos das bandas locais. Aí acaba sendo pouco festival pra tanto trabalho massa que temos aqui", comenta.

 

Grupo Cambará

Segundo ele, essa situação dificulta a formação de público das bandas e desacelera o mercado da música. "No rap ainda é mais difícil, porque é um estilo musical que ainda sofre muito preconceito. Tem muito produtor que trata o rap como projeto social e não valoriza a produção artística do estilo"completa. Não só Erivan, mas outros artistas cearenses, que já têm longa estrada na carreira, vivem o mesmo problema em Fortaleza. Para Jordão Luz, trompetista e um dos fundadores do grupo Cambará, a produção de discos e investimentos ainda é algo bem complicado. "Ainda sinto uma grande carência de produtores musicais que trabalhem mais próximos dos músicos da cena local (produção executiva e produção com direção musical). Dessa maneira, essa produção muitas vezes tem sido feita pelos próprios músicos, mesmo que de forma despreparada".

 

Festival é espaço de trocas e renovação da música
Ainda assim, há otimismo. A música no Ceará tem passado por intensas transformações, renovada por artistas dispostos a experimentar e a atualizar os elementos regionais. "Temos muito que descobrir, aprender e inovar na musica nordestina, finaliza Jordão. Depois de tocarmos sozinhas em festas por algum tempo, fomos nos juntando num espaço que só tinha homens no comando das pick-ups, mesmo que ainda tivessem mulheres cantando por cima do disco", descreve Elisabeth Silvero, ou só Betty, DJ do coletivo Women of Reggae

Esse movimento representa momento da cultura musical cearense, onde o reggae ganha força em bailes nas praças e equipamentos públicos de Fortaleza. As apresentações do gênero são com bandas ou DJs com sound system, sistema muito usado na Jamaica para músicos cantarem por cima de instrumentais de discos de reggae. Betty explica que as mulheres DJs e cantoras do Women foram ganhando espaço e agora têm planos de gravar o disco do grupo, mesmo que ainda existam as dificuldades que toda mulher no mundo artístico sofre. "Nosso pensamento é fazer conexões com essas mulheres, trazê-las aqui e irmos até elas. Unir e fazer acontecer". 

 

Coletivo Women of Reggae

 

Muitas bandas locais, selecionadas na chamada pública, lançam trabalhos inéditos na Maloca, dentre as quais está a banda Nafandus, liderada por Claudine, mulher de timbre rouco e forte. O álbum Unbreakble, em que Lucas Santiago, guitarrista da banda relata a mistura "do peso do rock alternativo e o dito stoner rock com escalas nordestinas ,percussão de maracatu e até trechos de Belchior nas músicas".

Tanto pra quem já tem carreira, quanto quem começa agora, segundo o rapper e produtor Erivan, "um festival como a Maloca Dragão ganha uma dimensão enorme de importância, porque abre espaço pra todo mundo e ajuda a projetar o trabalho dos artistas locais para fora do estado", representando assim, para quem participa, um potente diálogo com diferentes públicos, com outros músicos e a visibilidade que o festival tem no Ceará e no Brasil.

 

Banda Nafandus