Gilberto Gil batiza o início da programação musical da Maloca 2018
Terceiro dia da Maloca Dragão diz a que veio com vasta programação artística

 


          A Maloca Dragão 2018 começou há dois dias, mas foi ontem, quinta-feira, dia 26 de abril, que o festival definitivamente colocou a programação na rua e começou a dominar a Praia de Iracema com arte e muita gente disposta a vibrar e a celebrar com ela. Teve artista pintando os muros do Centro Dragão do Mar e entorno sob os olhares atentos de quem estava só dando uma passada por ali e resolveu ficar para ver onde ia dar aquele pincel. Teve abertura de instalação artística em homenagem a uma dos maiores expoentes da arte cinética no mundo, Sérvulo Esmeraldo - o cearense homenageado pelo festival - e sua Femme Bateau destroçada pela ressaca do mar, agora exposta nua em pleno museu, à espera do retorno ao horizonte da PI.

 


Os destroços da Femme Bateau no Museu de Arte Contemporânea do Ceará

 

          Na Multigaleria do Dragão, as paredes estavam tomadas pelas fotografias emblemáticas do francês Phelippe Gras sobre o maio de 68 na França. Abriram-se naquela noite para inspirar, quem sabe, uma nova revolução, ainda que íntima, no espectador dali. E por falar em revolução, a praça logo atrás da galeria era tomada por falas-manifesto e a reação de uma plateia emocionada com o espetáculo-show "Frei Tito Vive". Encenada pelo Grupo Formosura, encerrou-se com a voz de Mulher Barbada e Luiza Nobel - coroada por um imponente black power -, entoando juntas "Flutua/ Ninguém vai poder querer nos dizer como amar", canção de outra dupla, tão original quanto, Johnny Hooker e Liniker.

 


Público aplaude ato-show Frei Tito Vive

 

          Os principais shows da noite - Gero Camilo e Gilberto Gil - também assumiram tons políticos entre uma música e outra, quase como numa orquestração premeditada para fazer jus ao tema do festival neste ano, "Maio de 68: as barricadas abriram caminho". Em homenagem a Belchior, cantor cearense falecido há um ano, o também alencarino Gero Camilo fez o público chorar mais uma vez na Maloca ao som do rapaz latino-americano. Ano passado, havia sido organizado às pressas um tributo de vários artistas cearense a Belchior, no último dia daquela edição. Inevitavelmente triste. Falando à plateia, Gero lembrou ainda de Marielle e Dandara, assassinadas pela brutalidade conservadora, mas ainda presentes como símbolos de um luta que a arte, ali no palco, convidava a participar.

 


Plateia no show de Gero Camilo em homenagem a Belchior

 

          A terceira noite da Maloca, depois de todo esse acontecido, teve mais. Teve Gilberto Gil, no palco Draga Dragão, sob a brisa do mar de Iracema. O show "Refavela 40" celebrava o álbum homônimo do baiano Gil, que, segundo ele mesmo definiu pouco antes de subir ao palco, é um disco importante por tratar o "trabalho de incorporação do negro à vida brasileira, a valorização, o reconhecimento da grande contribuição do negro à formação do Brasil". O show surpreendeu ao iniciar com jovens músicos que apareciam ali entusiasmados de serem parte do espetáculo em comemoração aos quarenta anos de Refavela, clássico da Música Popular Brasileira. Mestrinho nos vocais e sanfona, Bem Gil na guitarra, Maria Gil nos backing vocals, Moreno Veloso, leve, cantando os clássicos do álbum, Sofia Freire, com uma voz à la Teti, suave também nos teclados. Uma reunião que esquentou um público ansioso, enquanto Gil não aparecia.

 

          Uns quarenta minutos depois de um álbum quase todo executado e uma chuvinha rápida para refrescar, eis que o anunciado sobe ao palco para a loucura dos fãs impacientes. Gil pulou, cantarolou suas primorosas (e típicas) vocalizações e foi aos clássicos, de Refavela, passando por Three Little Birds ao tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Um Gil feliz. Um público mais extasiado ainda e que, por vezes, puxou o coro de "Lula livre". De lá, ainda teve black music no Largo dos Tremembés pra fechar a noite e inaugurar mais uma jornada de arte e cultura daquelas. É, começou a Maloca Dragão 2018.