Depoimentos de profissionais mulheres do mercado cultural denunciam o machismo do meio e convidam à luta
A foto acima reúne todas as mulheres que fizeram o Conexões Maloca, o mercado de negócios do festival

 

        Profissionais mulheres do mercado da cultura falam sobre os preconceitos que resistem num meio majoritariamente masculino. Ainda que a programação de festivais e demais ações culturais país afora esteja mais atenta ao movimento feminista - que pede igualdade de tratamento entre os gêneros -, elas reforçam a necessidade de união e denúncia constantes por um cenário mais igualitário. Confira os depoimentos de Soledad, cantora; Kekel Abreu, atriz; Priscila Melo e Veronica Pessoa, produtoras culturais; e Marília Feix, jornalista. Todas elas estão participando do festival Maloca Dragão 2018.

 


SOLEDAD
É cantora e tem o feminismo como uma das bases de sua performance. É cearense, radicada em São Paulo. Faz show na Maloca

"Não só em festivais, como em todo rolê de música de que faço parte, vejo uma retomada do espaço pelas mulheres. Falo retomada, e não conquista, porque esse espaço sempre foi nosso. Enxergo essa preocupação no meio, mas ela não devia existir porque é um assunto da 'moda'. Essas transformações têm que existir porque são uma construção política importante para uma sociedade igualitária. Já passei por vários episódios machistas. É sempre uma dificuldade, por exemplo, o técnico de som ouvir a gente, se não for o meu próprio técnico. É como se nós, mulheres, não soubéssemos de nada. Dentro do processo de gravação do meu disco, foi muito difícil fazer com que meus desejos acontecessem. Mas foi importante para mim, porque pensei 'chega! Eu sou dona de mim, dona do meu trabalho, posso puxar as rédeas', tanto que agora conduzo de maneira diferente. A Yoko Ono tem uma entrevista em que ela conta que, para conseguir que as ideias dela acontecessem, fazia o cara acreditar que a ideia tinha partido dele. Imagina, a Yoko Ono! Também já me peguei fazendo isso, mas está errado. Não faço mais isso, até porque os boys estão prestando atenção, para não se queimarem nesse rolê. Não tem mais espaço para isso, só para nossa fala. Não preciso mais jogar para existir".


 

 

KEKEL ABREU
É atriz há 13 anos. No espetáculo "Navalha na Carne", do Grupo Imagens, interpreta a prostituta Neusa Sueli, personagem clássica de Plínio Marcos. O espetáculo está na programação da Maloca Dragão

"Neusa é uma das mulheres mais poderosas e representativas que conheço e eu me vejo nela. Uma mulher gorda, à margem, mas forte e que quebra todo estereótipo da mulher jovem, bonita. Ela apanha do marido, que é seu próprio cafetão, mas ela tenta encontrar na rua o amor que não tem em casa. E acho que devemos levar isso para nós, acreditar que temos direito ao amor. Na área teatral, vejo que têm crescido os papéis direcionados a mulheres e elas são maravilhosas. A Juliana Veras é um exemplo. Vemos mais espetáculos que colocam o corpo feminino na rua, o seio da mulher para fora. Mas ainda há muito a ser feito. Já passei por vários momentos constrangedores com professores dizendo que existem poucas atrizes boas, que um homem faria melhor o papel daquela mulher etc. Mas a arte vem como grito para mudar isso".

 

 

 

PRISCILA MELO
É produtora cultural há 17 anos e coordenadora do Conexões Maloca

"Os homens são predominantes em praticamente todos os setores do mercado. Nossa história de luta é secular. Temos que estar fortes e juntas, com a participação dos homens nisso inclusive. Se ficarmos falando só para nós mesmas essa transformação não existirá. Enfrentamos o machismo todo tempo, em casa, na padaria, na rua, no trabalho. É desgastante esse lugar. Nessa luta, precisamos da fiscalização de todos, curadores, artistas, programadores, organizadores etc. A gente acabou de ter um caso de um festival que soltou uma programação com nove homens e a Liniker, um festival que tinha uma vertente libertária, de questionamento, com homens de esquerda programados para se apresentar, mas em nenhum momento pararam para avaliar porque não tinha mulher naquela programação. Eu liguei para alguns daqueles artistas e perguntei 'não viram que dentro da programação da qual você vai fazer parte não tem uma mulher? Isso não te incomoda?' (depois de mobilizar artistas, cantores e público, o festival foi temporariamente suspenso, para reavaliar a programação). Então, o machismo ocorre todos os dias. O cara pode trabalhar sem camisa no palco e eu não posso trabalhar com um short, com uma saia. Posso dar muitos exemplos. A gente está sempre num lugar de resguardo, de cuidado, sempre na defensiva. Nós mulheres não somos machistas, mas, muitas vezes, reproduzimos o machismo. Ao mesmo tempo em que eu me privo de ser eu, livre, mulher, para atender àquele comportamento imposto pelos homens, eu já estou digerindo e assumindo esse papel. Por isso, precisamos dialogar, questionar, levantar essa pautas com todos para uma transformação real".

 


 

MARÍLIA FEIX
É jornalista da Noize e Rádio Unisinos (RS) e uma das convidadas do Conexões Maloca

"O que mais me incomoda é que a gente (mulher) tem que estar sempre provando que somos inteligentes, que sabemos fazer, que temos capacidade. Em muitos momentos, trabalhando com muitos homens, eu tive que provar muito mais, fazer muito melhor e dar muito mais ferramentas para saberem que eu era capaz, mesmo me conhecendo e tendo noção do meu trabalho. É gritante a diferença de tratamento. Já fui a muitos festivais internacionais e percebi que, nos últimos quatro anos, a pauta do feminismo está forte. Mesmo que seja uma bandeira 'forçada', mas que bom que ela existe, está havendo um processo de transformação. Nesse processo, acho que uma das coisas mais importantes é que a gente lembre de dar oportunidades para outras mulheres, de ajudar outras mulheres. É essencial esse apoio entre a gente".

 

 

 

VERONICA PESSOA
Pernambucana, foi morar em São Paulo há 15 anos, onde criou a Rizoma (aceleradora de projetos artísticos da Natura Musical) e Pessoa Produtora (que agencia novos artistas). É uma das convidadas do Conexões Maloca

"A aceleradora é formada por mulheres e tem um ambiente muito acolhedor para que elas trabalhem, mas eu sei o quanto isso é exceção, principalmente, quando lidamos com empresas. O ambiente corporativo, mesmo o que patrocina a cultura, é extremamente masculino e traz muito preconceito em relação à posição da mulher. É matar um leão por dia se impor, colocar nossas opiniões, criar espaços. Meu olhar de mulher nordestina no Sudeste me mostra o quão isso é árduo, mas o quanto é necessário também que a gente se faça ser ouvida. A situação mais constrangedora foi quando fui chamada para apresentar uma proposta a uma empresa em São Paulo. Fui com minha sócia, que também é nordestina, ouvir o que eles queriam, para depois apresentarmos nossa proposta. Era um almoço. Depois que terminou o briefing e assuntos gerais se iniciaram, eles disseram como era absurdo ter tanta mulher nordestina trabalhando no Sudeste e como isso tirava a vaga de emprego de pessoas de lá. Na mesma hora, perguntei 'vocês sabem a quem vocês pediram uma proposta de trabalho? Desculpa, mas somos mulheres nordestinas e acho que não vem ao caso a gente trabalhar para vocês, porque a gente não presta serviço para pessoas que não acreditam na competência da mulher nordestina'. Saí de lá aos prantos. Foi há mais ou menos cinco anos e ali, pela primeira vez, vi aquele tipo de preconceito, tão claro, tão explícito. Foi a primeira vez que vi o mercado se fechar à minha volta e começar a oprimir a mulher, o nordestino, a minoria. A gente estava construindo um cenário bonito, mas fomos golpeados e corremos o risco de regredir. Tenha uma amiga, a baiana Assucena Assucena (vocalista trans da As Bahias e a Cozinha Mineira) cujo lema é 'bota a cara no sol' e a gente está precisando disso, cada vez mais, a mulher, a travesti, o feminino como um todo, porque a opressão vem como um trator e a gente não pode ficar na sombra".